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... tenho a liberdade de escrever e deixar ler a quem interessar alguns poemas, fotografias, críticas e outras coisas.A efemeridade da vida e o seu processo cíclico, a efervescência dionisíaca da sociedade são assuntos que quero botar em discussão.Então...fiquem a vontade.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Coisa alguma

Por achar coisas demais
Não acho mais nada.
Quem pensa que acha alguma coisa
Acaba não encontrando coisa alguma.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Breve ensaio de pontos e cores

Do tempo das coisas simples difere do tempo real.
É outro tempo o tempo da imaginação da menina
As pequenas estações do tempo fogem a toda complexidade
Na primavera, árvores em vários tons  formam um bosque multicor, de suas copas brotam saladas de frutas.Todas as frutas.
Escorrem  marcas de dedos de seus troncos e galhos,por onde as lagartas saltam e ensaiam breves voôs  rasantes no ar de algodão doce.
No outono, folhas de asas de borboletas flutuam sobre o chão,
Na penumbra da árvore solitária,um sapo-rato passa pescando no ar mosquitos de queijo.
No inverno, cinza em pontos monocromáticos formam algumas nuvens no céu.
As nuvens formam diversos desenhos.
De repente, lá no alto uma torneira deixa derramar na terra cartas azuis.
Das cartas escorrem palavras de amor que fertilizam o mundo.
No verão,o vento carrega consigo uma delas
Chega até a caixa de correio,morada do pombo.
O sol aquece o solo.
Uma serpente faminta de si mesma se engole
Forma um ponto no chão.
A imaginação recomeça
Ponto de partida
Para a imaginação da menina a única regra é não haver nenhuma.

*Baseado na pintura de Gabriela



terça-feira, 20 de março de 2012


palavra pequenina
monossílaba
Apenas uma faísca
Um ponto de luz.
Um grão de mostarda
Quer germinar
Nas terras áridas
Do meu peito.

O que há?

O que há escondido por trás de cada vontade?
O que há escondido por trás de cada gesto?
O que há escondido por trás de cada palavra?
O que há escondido em mim?

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Lua de Guita

Haviam duas luas
Uma lua na caixa de fósforos
Lua da menina
Outra no céu
lumina essência
Dentro do sapato
Lua ilumina
Pés de lua
Sapato furado
Pelo buraco entra o rato
O rato comeu a lua
O rato se encantou
Correu e subiu no galho
A lua consome o rato
O rato enluarou
Gotas de luz
Caem sobre as folhas
Gotas de lua
Para dentro do rio
A água serenou
Espelho do luar
História de gostar
Um dia menina contou.
Te juro!

* Baseado no romance Marajó de Dalcídio Jurandir

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Último Carnaval

Na manhã de carnaval
Vejo meu rosto no espelho de outros rostos
Úmidos
Pálidos
Vozes balbuciam coisas que não compreendo
Pessoas se amontoam
Passam
Lembro do cheiro de flores
E da moça de máscara lilás e brilhante
Crianças correm e riem
às vezes choram
Serpenteia em mim raio de luz da manhã
Com pequenas gotas de confetes
Que molham  e salgam a terra .
O bumbo toca
Segue o cortejo
A vida segue
Com todas as suas cores
É carnaval apenas
Último carnaval.
No espelho dos rostos é só mais um
Carnaval de todo dia
Cotidianamente ridicularizado.
Hoje sou rei
Carregado pelos arautos fúnebres de minha existência
 Repouso eternamente
Nas cinzas da quarta feira.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Aranha

                                                        Ode à Má Mère - Louise Borgeois

A aranha trabalha metódicamente
Tece fios de tramas complexas
As mesmas linhas da palma da mão.
Fios de mãos moiras
Levam o caminho para vida ou morte.
A aranha cuida dos filhotes
Tece fios quentes e macios
Um a um
Devoram-se
A mãe traça os destinos.
Quem irá me amamentar?
Aranha materna me acalenta
Trabalha
Mãe- aranha me alimenta
Me prende em sua teia
O que será de mim quando partires?
Afastem-se fiadeiras
O medo não existe?
Uno os fios de tua vida
Para que não fiques por um fio.